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Letter to the editor

A ResearchGate como ferramenta estratégica para a visibilidade científica na Fonoaudiologia

ResearchGate as a strategic tool to enhance the scientific visibility in Speech-Language Pathology and Audiology

Vanessa Luisa Destro Fidêncio

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Resumo

Prezadas editoras da Revista CoDAS,: A proposta desta carta é propor uma reflexão sobre o fortalecimento da presença de pesquisadores(as) fonoaudiólogos(as) no ambiente digital, com ênfase na rede social acadêmica ResearchGate, a fim de ampliar o alcance e o impacto das pesquisas desenvolvidas na área.

Em um editorial publicado em 2020, Navas et al.(1) discutiram a democratização do conhecimento técnico-científico no ambiente digital, com uso das redes sociais como ferramenta para diminuir as distâncias entre a pesquisa e a prática clínica e disseminação rápida e acessível do conteúdo científico. Já em um segundo editorial, publicado em 2024(2), os autores discutiram a respeito dos impactos da pandemia de COVID-19 para a divulgação científica, levantando dados do perfil da revista CoDAS nas redes sociais Instagram, Twitter, Facebook e LinkedIn. Outras evidências(3,4) colocaram os pesquisadores brasileiros entre os que mais acreditam no potencial da ResearchGate para a visibilidade acadêmica e com maior intenção de aumentar a atividade na rede. No entanto, pela falta de publicações a respeito, acredita-se que essa seja ainda uma rede pouco explorada por pesquisadores da área da Fonoaudiologia no Brasil.

A ResearchGate (5), fundada em 2008, trata-se de uma rede social dedicada exclusivamente ao uso profissional da comunidade científica(6). Os membros podem adicionar dados como grau acadêmico, afiliações institucionais, áreas de atuação, histórico educacional, habilidades, prêmios, bolsas, financiamentos, vínculos com sociedades científicas, número ORCID e papéis desempenhados em periódicos científicos. Além disso, compartilham suas produções acadêmicas, como artigos publicados em periódicos. O perfil é pesquisável por membros da plataforma e, se configurado como público, também pode ser encontrado por não-membros e indexado por mecanismos de busca(7).

A ResearchGate combina elementos tradicionais com novas abordagens no que se refere à construção e ao monitoramento da reputação acadêmica, com ampla variedade de métricas. Determinadas métricas, como o número de leituras (reads) — calculado internamente pelo sistema — são atualizadas em tempo quase real. Além disso, são enviadas notificações por e-mail sempre que um membro tem seus trabalhos lidos, seguidos ou citados, permitindo o acompanhamento contínuo de sua visibilidade e impacto acadêmico(4). As perguntas e respostas (Q&A) têm a intenção de aumentar o engajamento na rede, promovendo espaços onde os membros podem fazer suas perguntas e obter respostas(4,8). Por fim, uma das métricas utilizadas na ResearchGate é o ResearchGate score (RG score). Apesar de sua composição real ser desconhecida, hipotetiza-se que essa métrica seja composta pelas seguintes dimensões: publicações (50%), Q&A (sendo 25% para respostas e 24% para perguntas) e seguidores (1%)(8).

O primeiro estudo que se propôs a analisar métricas de impacto de pesquisadores fonoaudiólogos na ResearchGate data de 2017(9). Foram avaliados mais de 2000 docentes de 257 programas credenciados na área da Fonoaudiologia nos EUA e Canadá. Os docentes estavam distribuídos entre a área de Audiologia (24,4%; n=490) e a de Terapia da Fala (75,6%; n=1.520). As mulheres representavam 68,1% do corpo docente, enquanto os homens correspondiam a 31,9%. A proporção de docentes com perfil na ResearchGate foi de 44% (n=885). Foram analisadas três métricas da rede: número de publicações, número de citações e o RG score. Docentes da área de Audiologia apresentaram valores medianos significativamente mais altos em todas as métricas. Essas diferenças também foram observadas entre homens e mulheres, com maiores medianas entre os homens. Além disso, os índices aumentaram progressivamente com o avanço na carreira acadêmica.

As redes sociais tornaram-se ferramentas poderosas e essenciais para a comunidade científica(10) e a ResearchGate apresenta potencial para aumentar exponencialmente a colaboração científica e promover o avanço do conhecimento(11). No entanto, algumas métricas ainda apresentam-se controversas, como o RG score (6). O RG score considera a ferramenta Q&A e evidências(8,12) apontam que há pouco interesse no uso desta por grande parte dos membros cadastrados na rede. Além disso, questões de gênero podem influenciar nas métricas de reputação dos pesquisadores cadastrados(9,10). Assim, especialistas referem como mais valiosas na análise da reputação de pesquisadores na Fonoaudiologia as seguintes métricas: número de produções científicas publicadas (total e nos últimos cinco anos) e número de citações excluindo autocitações (total e nos últimos cinco anos)(9).

Embora se reconheçam os imensos benefícios de redes sociais como a ResearchGate, é crucial reconhecer os desafios associados(13). Destacam-se aqui os riscos relacionados à violação de direitos autorais. Na ResearchGate, os pesquisadores podem compartilhar suas produções científicas em diferentes formatos, como texto completo, resumos e arquivos em PDF. No entanto, quando um artigo é publicado em um periódico científico com revisão por pares, é comum que o autor tenha firmado um contrato com a editora, sociedade científica ou com o próprio periódico, concedendo exclusividade para a publicação. Em geral, esse tipo de contrato impede o compartilhamento do texto completo em outras plataformas ou redes. Nesses casos, os autores podem incluir apenas o link oficial para o artigo no site do periódico, que pode ou não estar disponível gratuitamente, dependendo das políticas de acesso da publicação. Mesmo nos periódicos de acesso aberto, a recomendação é que o pesquisador compartilhe na ResearchGate apenas o link oficial, evitando o envio direto do PDF completo(14).

A ResearchGate é uma rede emergente, que ainda está em progresso, cujas métricas ainda poderão ser modificadas(4). Como o registro e a manutenção de perfis nessa rede são voluntários, é plausível que pesquisadores com maior produção científica se sintam mais motivados a criar e tornar públicos seus perfis, buscando visibilidade e reconhecimento. Em contrapartida, aqueles com menor volume de publicações podem optar por não aderir a essa rede, o que gera uma sub-representação desse grupo. Como resultado, os indicadores autorais podem apresentar valores inflacionados, refletindo mais o perfil dos membros engajados do que o panorama real e completo da produtividade acadêmica da área(9).

Entende-se que a análise de medidas quantitativas de impacto científico no nível do autor, no campo da Fonoaudiologia, é justificada. A motivação pode variar conforme o contexto: seja um docente individual analisando sua própria produção ou a de outrem; um administrador tomando decisões sobre contratação, estabilidade ou promoção; ou uma agência de fomento avaliando pedidos de financiamento(9). A ResearchGate transcende fronteiras geográficas, permitindo que pesquisadores se conectem e colaborem com colegas ao redor do mundo. Isso promove esforços de pesquisa internacionais, colaboração interdisciplinar e a troca de boas práticas e ideias inovadoras(11). De qualquer forma, certamente será necessário promover ações de conscientização e capacitação para que os pesquisadores compreendam os desafios relacionados ao uso das redes sociais e os motivos pelos quais devem utilizá-las(15). Nesse cenário, destaca-se o uso estratégico da ResearchGate, cuja interface voltada à comunidade científica permite não apenas a ampliação da visibilidade das produções em Fonoaudiologia, mas também o fortalecimento de colaborações, a disseminação do conhecimento em tempo real e a construção de indicadores alternativos de impacto. A exploração dessa rede pode contribuir para uma cultura científica mais aberta, conectada e alinhada com as demandas contemporâneas de divulgação e acessibilidade da ciência.

Referencias

1 Navas ALGP, Berti L, Trindade ER, Lunardelo PP. Divulgação científica como forma de compartilhar conhecimento. CoDAS. 2020;32(2):e20190044. https://doi.org/10.1590/2317-1782/20192019044. PMid:32520079.

2 Navas AL, Lunardelo PP, Lemos SMA, Ribeiro VV, Lopes LW. O impacto da pandemia da COVID-19 para a divulgação científica. CoDAS. 2024;36(2):e20240068. https://doi.org/10.1590/2317-1782/20242024068pt. PMid:38695433.

3 Meier A, Tunger D. Survey on opinions and usage patterns for the ResearchGate platform. PLoS One. 2018;13(10):e0204945. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0204945. PMid:30289904.

4 Nicholas D, Clark D, Herman E. ResearchGate: reputation uncovered. Learn Publ. 2016;29(3):173-82. https://doi.org/10.1002/leap.1035.

5 ResearchGate. [Internet]. [citado em 2025 Maio 11]. Disponível em: https://www.researchgate.net

6 Clavier T, Occhiali E, Demailly Z, Compère V, Veber B, Selim J, et al. The association between professional accounts on social networks Twitter and ResearchGate and the number of scientific publications and citations among anesthesia researchers: observational study. J Med Internet Res. 2021;23(10):e29809. https://doi.org/10.2196/29809. PMid:34652279.

7 ResearchGate. Profile information and visibility [Internet]. 2025. [citado em 2025 Maio 11]. Disponível em: https://help.researchgate.net/hc/en-us/articles/14292720154513-Profile-information-and-visibility

8 Orduna-Malea E, Martín-Martín A, Thelwall M, López-Cózar ED. Do ResearchGate Scores create ghost academic reputations? Scientometrics. 2017;112(1):443-60. https://doi.org/10.1007/s11192-017-2396-9.

9 Stuart A, Faucette SP, Thomas WJ. Author impact metrics in Communication Sciences and Disorder research. J Speech Lang Hear Res. 2017;60(9):2704-24. https://doi.org/10.1044/2017_JSLHR-H-16-0458. PMid:28815261.

10 Demailly Z, Brulard G, Tamion F, Veber B, Occhiali E, Clavier T. Gender differences in professional social networks use among critical care researchers. Aust Crit Care. 2024;37(3):483-9. https://doi.org/10.1016/j.aucc.2023.04.003. PMid:37173167.

11 Joshi ND, Lieber B, Wong K, Al-Alam E, Agarwal N, Diaz V. Social media in neurosurgery: using ResearchGate. World Neurosurg. 2019;127:e950-6. https://doi.org/10.1016/j.wneu.2019.04.007. PMid:30965167.

12 Alheyasat O. Examination expertise sharing in academic social networks using graphs: the case of ResearchGate. Contemp Eng Sci. 2015;8(3):137-51. https://doi.org/10.12988/ces.2015.515.

13 Ahmadi S. Social media in neurosurgery: the rise of ResearchGate. World Neurosurg. 2024;190:10-1. https://doi.org/10.1016/j.wneu.2024.06.155. PMid:38964457.

14 Cress P. Clever emails from ResearchGate encourage authors to breach Copyright Law. Aesthet Surg J. 2021;41(7):854-8. https://doi.org/10.1093/asj/sjab205. PMid:33895808.

15 Boudry C, Durand-Barthez M. Use ofauthoridentifierservices (ORCID, ResearcherID) andacademic social networks (Academia.edu, ResearchGate) bytheresearchersoftheUniversityof Caen Normandy (France): a case study. PLoS One. 2020;15(9):e0238583. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0238583. PMid:32877458.
 


Submitted date:
12/05/2025

Accepted date:
23/05/2025

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